A importância da função transcendente para a saúde mental
- Kahlinne Rocha Brandão
- 8 de mai.
- 6 min de leitura

Nesse texto irei discorrer sobre a função transcendente, que é um assunto muitíssimo importante para compreendermos a teoria e prática junguiana de forma mais aprofundada. Para isso, usarei como referência um ensaio de Carl Gustav Jung inserido na obra A NATUREZA DA PSIQUE (Volume 8/2 da Obra Completa), que se chama exatamente “A função transcendente”, fundamental para quem estuda a Psicologia Analítica.
Então, vamos tentar explicar algo sobre o que é esse fenômeno psicológico chamado função transcendente, uma vez que é justamente a falta dessa função ou dessa transcendência que está na base da maioria dos desequilíbrios psíquicos!
Logo no início do referido ensaio, Jung deixa claro que a “função transcendente” não é um fenômeno misterioso, do tipo suprassensível ou metafísico, mas sim uma função psicológica que resulta da união dos conteúdos conscientes e inconscientes (JUNG, 2021, p. 13). Em seguida, por ser essencial para a compreensão do processo de transcendência, Jung esclarece acerca da relação compensatória ou complementar entre o inconsciente para com a consciência e vice-versa:
A experiência no campo da psicologia analítica nos tem mostrado abundantemente que o consciente e o inconsciente raramente estão de acordo no que se refere a seus conteúdos e tendências. Esta falta de paralelismo, como nos ensina a experiência, não é meramente acidental ou sem propósito, mas se deve ao fato de que o inconsciente se comporta de maneira compensatória ou complementar em relação à consciência. Podemos inverter a formulação e dizer que a consciência se comporta de maneira compensatória com relação ao inconsciente. (JUNG, 2021, p. 13)
Ora, diante dessa correlação natural entre ambas as dimensões da psique, precisamos entender bem essa questão da união de conteúdos, que na verdade se trata de um processo de confrontação entre o Ego (centro da consciência) e os produtos do inconsciente; pois dessa confrontação poderá haver uma transcendência decorrente da integração dos opostos. Assim, o termo “transcendente” refere-se ao fato de que - por meio dessa confrontação de conteúdos conscientes e inconscientes - ocorre uma transição de uma atitude psíquica para outra, integrando elementos opostos e, enfim, eliminando a repressão do inconsciente (que passa a ser considerado tanto quanto a consciência, em sua importante função compensatória). Em vez de repressão, vai haver uma integração na consciência e, por consequência, uma transcendência psíquica.
Vejamos, nas palavras de Jung:
A questão fundamental para o terapeuta é não somente como eliminar a dificuldade momentânea, mas como enfrentar com sucesso as dificuldades futuras. A questão é esta: que espécie de atitude espiritual e moral é necessário adotar frente às influências perturbadoras, e como se pode comunicá-la ao paciente?
A resposta, evidentemente, consiste em suprimir a separação vigente entre a consciência e o inconsciente. Não se pode fazer isto, condenando unilateralmente os conteúdos do inconsciente, mas, pelo contrário, reconhecendo a sua importância para a compensação da unilateralidade da consciência e levando em conta esta importância. A tendência do inconsciente e a da consciência são os dois fatores que formam a função transcendente. É chamada transcendente, porque torna possível organicamente a passagem de uma atitude para outra, sem perda do inconsciente. (...) (JUNG, 2021, p. 18)
De modo simplificado, na prática clínica, esse processo de “renovação da atitude” acontece, por exemplo, da seguinte forma - ou vamos pensar no processo terapêutico passando pelas seguintes etapas: primeiramente, acessamos o conteúdo inconsciente, ou melhor, as imagens do inconsciente em seu aspecto simbólico. Essas imagens obtemos por meio de sonhos, fantasias espontâneas, visões, imaginação ativa, ou ainda mediante recursos expressivos com os quais podemos trazer para a consciência as imagens inconscientes (produtos do inconsciente), por exemplo, por meio de pintura, desenho ou escrita livre; sempre evitando-se atenção crítica por parte da consciência o máximo possível.
O que se procura aqui é a maneira de tornar conscientes os conteúdos do inconsciente que estão sempre prestes a interferir em nossas ações, e, com isto, evitar justamente a intromissão secreta do inconsciente, com suas consequências desagradáveis. (JUNG, 2021, p. 24)
Em seguida, nós passamos pela confrontação dialética, no qual o Ego vai dialogar com esse material fornecido pelo inconsciente, mediante uma elaboração ou uma conversa com direitos iguais entre o Ego do paciente e seu inconsciente. Para, enfim, dessa tensão entre opostos, ou dessa confrontação dialética, ser gerado um terceiro elemento que leva a psique a um novo nível de ser, a um novo entendimento ou, ainda nas palavras de Jung, a “um reajustamento da atitude psicológica”.
Tem, assim, início a confrontação entre o Ego e o inconsciente. Esta é a segunda e a mais importante etapa do procedimento, isto é, a aproximação dos opostos da qual resulta o aparecimento de um terceiro elemento que é a função transcendente. Neste estágio, a condução do processo já não está mais com o inconsciente, mas com o Ego. (JUNG, 2021, p. 33-34)
Um dos requisitos essenciais do processo de confrontação é que se leve a sério o lado oposto. Somente deste modo é que os fatores reguladores poderão ter alguma influência em nossas ações. Tomá-lo a sério não significa tomá-lo ao pé da letra, mas conceder um crédito de confiança ao inconsciente, proporcionando-lhe, assim, a possibilidade de cooperar com a consciência em vez de perturbá-la automaticamente. (JUNG, 2021, p. 34-35)
A confrontação, portanto, não justifica apenas o ponto de vista do eu, mas confere igual autoridade ao inconsciente. A confrontação é conduzida a partir do eu, embora deixando que o inconsciente também fale – audiatur et altera pars (ouça-se também a outra parte). (JUNG, 2021, p. 35)
Desse modo, no final do processo analítico, podemos dizer que houve uma transcendência psíquica. O estado psíquico anterior do paciente - que se baseava no conflito entre opostos (consciente e inconsciente) foi transcendido.
O alternar-se de argumentos e de afetos forma a função transcendente dos opostos. A confrontação entre as posições contrárias gera uma tensão carregada de energia que produz algo de vivo, um terceiro elemento que não é um aborto lógico, consoante o princípio: tertium non datur (não há um terceiro integrante), mas um deslocamento a partir da suspensão entre os apostos e que leva a um novo nível de ser, a uma nova situação. A função transcendente aparece como uma das propriedades características dos opostos aproximados. Enquanto estes são mantidos afastados um do outro – evidentemente para se evitar conflitos – eles não funcionam e continuam inertes. (JUNG, 2021, p. 36)
Importante, ainda, explicar que essa função transcendente dos opostos se opera mediante a emergência do símbolo, que funciona como mediador ou ponte entre os lados opostos. Isso porque será justamente a partir de uma elaboração simbólica e compreensão do significado dos conteúdos inconscientes - confrontados pelo Ego - que a função transcendente se completa.
Sobre o conceito do símbolo, assim esclarece Jung:
O método, com efeito, baseia-se em apreciar o símbolo, isto é, a imagem onírica ou a fantasia, não mais semioticamente, como sinal, por assim dizer, de processos instintivos elementares, mas simbolicamente, no verdadeiro sentido, entendendo-se “símbolo” como o termo que melhor traduz um fato complexo e ainda não claramente apreendido pela consciência. (JUNG, 2021, p. 20)
O símbolo é o elemento de comunicação por excelência do chamado EIXO EGO-SELF, ou seja, da conexão entre o Ego (centro da consciência) e o Self (centro do inconsciente profundo e, também, arquétipo da totalidade). Daí porque a alienação no eixo Ego-Self vai impossibilitar a emergência da função simbólica. É como uma ponte que, uma vez quebrada, prejudicada, vai deixar de ter uma comunicação, não vai haver ligação, e, por consequência, em se tratando da psique, no mínimo distúrbios psicológicos vão surgir! Quando um símbolo emerge (numa imagem onírica, fantasia ou sincronicidade, por exemplo) é um sinal que a psique está engajada nessa relação entre necessidades que são aparentemente contraditórias, quais sejam, as necessidades do Ego e seus conteúdos pessoais, únicos, e as necessidades do Self, com seus impulsos de ordem mais geral e universal.
Diante disso, podemos então concluir, quanto a importância da função transcendente para a saúde mental, que essa transcendência psíquica - ao suprimir a separação psíquica (oposição consciente e inconsciente) - resolve a cisão interna que normalmente é o que gera tensões energéticas e, por óbvio, adoecimento psíquico, bem como evita possíveis irrupções incontroláveis do inconsciente na vida do indivíduo (um exemplo típico são as explosões de ordem emocional); e ajuda a restaurar o sistema autorregulador da psique, permitindo não só que a influência reguladora do inconsciente continue compensando a unilateralidade da vontade consciente de modo saudável, como também a própria expansão da consciência, conforme aponta Jung nas seguintes considerações finais:
A consciência é ampliada continuamente ou – para sermos mais exatos – poderia ser ampliada pela confrontação dos conteúdos até então inconscientes se se desse ao cuidado de integrá-los. Mas isto evidentemente nem sempre acontece. E mesmo quando se tem suficiente inteligência para compreender o problema, falta coragem e autoconfiança, ou a pessoa é espiritual e moralmente demasiado preguiçosa ou covarde para fazer qualquer esforço. Mas quando há os pressupostos necessários, a função transcendente constitui não apenas um complemento valioso do tratamento psicoterapêutico, como oferece também ao paciente a inestimável vantagem de poder contribuir, por seus próprios meios, com o analista, no processo de cura e, deste modo, não ficar sempre dependendo do analista e de seu saber, de maneira muitas vezes humilhante. Trata-se de uma maneira de se libertar pelo próprio esforço e encontrar a coragem de ser ele próprio. (JUNG, 2021, p. 37-38)
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